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CAROS CAMARADAS!: TRABALHADORES EM LUTA | Crítica do filme

O massacre de 1962 em Novocherkassk nos revela a traição definitiva da revolução russa em um drama de partir o coração

O novo filme do aclamado cineasta e roteirista Andrei Konchalovsky (“O Círculo do Poder”, “Expresso Para o Inferno”, “Tango & Cash” e vencedor do Leão de Prata de melhor diretor por “Paraíso”), Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta (Dear Comrades), nos mostra como o massacre de1962 em Novocherkassk foi abafado pelos pela liderança na época. A produção pretende provocar desde os primeiros momentos o espectador com os créditos de abertura de aparência séria que Andrei Konchalovsky nos apresenta com uma série de recursos notavelmente variados neste drama irado e comovente.

Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta (Dear Comrades) / A2 Filmes (Foto: Divulgação)

Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta explica a um público ocidental pouco informado que o fuzilamento de 26 trabalhadores em greve foi, para muitos soviéticos leais em cena, a traição definitiva da revolução e daqueles que tanto se sacrificaram na Grande Guerra Patriótica. O resto do país não sabia quase nada sobre isso até que os documentos classificados como secretos foram descobertos em 1992. Filmado em preto e branco em uma proporção estreita, Andrei Konchalovsky e o diretor de fotografia Andrey Naydenov convidam o espectador a admirar a habilidade de sua criação de imagens, enquanto nos arrastam para a traição mais profunda que o povo soviético já viveu.

Um dos destaques do longa ficam para a atuação eletrizante de Julia Vysotskaya (nascida em Novocherkassk uma década depois do massacre), que interpreta a cativante Lyuda, uma mulher dedicada nos ideais soviéticos e que é membro do partido que está no poder. A personagem sente falta do líder mais intransigente do país, Stalin. O pai de Lyuda faz um contraponto interessante ao endeusar ícones sagrados e vestir uniformes proibidos e sua filha é tão rebelde quanto esperamos que as filhas sejam com um pai tradicionalista.

Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta (Dear Comrades) / A2 Filmes (Foto: Divulgação)

Quando os trabalhadores eletromotrizes marcham no conselho da cidade, Lyuda é a primeira a se levantar e exigir sua execução. O que se segue ainda é contestado, mas parece que uma divisão da KGB disparou contra a multidão de locais e Lyuda é inicialmente resiliente, mas as dúvidas se instalam quando ela não volta para casa.

A dinâmica da matança é reproduzida em traços visuais nítidos. Lyuda é envolvida em uma cena com uma cidadã em um cabeleireiro que logo em seguida mostra como as autoridades fizeram um acobertamento enviando cadáveres para locais remotos na zona rural e ao longo de tudo isso, o humor impassível se infiltra nas respostas oficiais. Alguém culpa a CIA pelos atos e outras pessoas rastreiam a beligerância até os cossacos. 

Neste momento em particular, Andrei Konchalovsky e a corroterista Elena Kiseleva mostram que criaram um arsenal impressionante de cenas e imagens para detalhar o horror, o absurdo e a rachada lógica comunista que dominou os eventos. Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta foi comparado à grande minissérie da HBO, Chernobyl, mas o que vemos nesse filme mostram que essa produção inteiramente russa acabou criamdp algo inteiramente autentico e desesperador, misturado com uma crueldade diabólica que é salpicada com atos furtivos de bondade. Nos atos seguintes, o longa vai mostrando a deterioração da filosofia política que Lyuda acreditava.

Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta (Dear Comrades) / A2 Filmes (Foto: Divulgação)

No geral, Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta tem muitas cenas para serem saboreadas de forma bastante singular, mas acima de tudo a produção demonstra como até a mais firme convicção pode murchar quando entra em conflito com o afeto pessoal.

Trailer:

Sinopse:

Novocherkassk, URSS, 1962. Lyudmila é uma executiva e devota do Partido Comunista, que lutou na Segunda Guerra Mundial pela ideologia de Stalin. Certa de que seu trabalho criará uma sociedade comunista, a mulher detesta qualquer sentimento antissoviético. Durante uma greve, Lyudmila testemunhou trabalhadores sendo baleados por ordem do governo, que busca encobrir greves trabalhistas em massa. Após o banho de sangue, quando os sobreviventes fogem da praça, Lyudmila percebe que sua filha desapareceu. Uma fenda aberta se abre em sua visão de mundo. Apesar do bloqueio da cidade, das prisões em massa e das tentativas das autoridades de encobrir o massacre, Lyudmila procura sua filha. A vida dessa mulher nunca mais será a mesma.

Caros Camaradas!: Trabalhadores em Luta 

9

Nota para o filme:

9.0/10

Prós

  • Abordagem de história real e cruel
  • Ótima direção de Andrei Konchalovsky
  • Atuação eletrizante de Julia Vysotskaya
  • Bela fotografia de Andrey Naydenov

Igor Ops

Professor de Biologia e Educação Física Escolar, amante de praticamente tudo do mundo nerd e lunático pela 7º Arte. Gosta da Marvel mas não tem vergonha de revelar para todos o seu amor platônico pela DC Comics e odeia a briga boba entre marvetes e dcnautas.

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