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POR LUGARES INCRÍVEIS | Netflix e a romantização da saúde mental

O novo filme em catálogo “Por Lugares Incríveis”, sucede aos “13 Porquês” no fracasso de retratar adequadamente a saúde mental.

Pelo material promocional da nova adaptação, tudo se tratava de um romance adolescente. A arte capando o filme mostra dois jovens abraçados, colando testa com testa, com o nariz próximo o suficiente para que o casal apaixonado selassem um beijo. Por um momento você se pega lembrando das obras de Nicholas Sparks.

Não é de surpreender que muitos tenham confundido o filme com um romance, a retratação de um romance adolescente. “Um romance que precisamos em nossa vida“, declarou uma manchete da Glamour UK. Infelizmente é disso que se trata ‘Por Lugares Incríveis’.

O filme segue Violet Markey (interpretada por Elle Fanning), uma estudante do ensino médio que sofre com a culpa dos sobreviventes após a morte de sua irmã, e Theodore Finch (Justice Smith), 17 anos, que luta contra o transtorno bipolar e a depressão maníaca. Suas condições não são mencionadas no filme ou em qualquer lugar em seus materiais promocionais. Em vez disso, a única linha da Netflix para Por Lugares Incríveis é que “dois adolescentes enfrentando lutas pessoais formam um vínculo poderoso enquanto embarcam em uma jornada descobrimento“.

O filme fornece um tipo de alívio psicológico, mas não para o personagem suicida, a quem mais necessita. A história encobri a delicadeza do tema com armadilhas típicas do romance jovem-adulto. Cenas dos amantes partindo juntos em aventuras, quebrando o toque de recolher e vivendo uma paixão em locais lindos. Mas quando a história em seu fim trágico é perceptível, a tapada de sol com uma peneira e a facilidade com questões que seriam  ‘resolvidas’ com uma tamanha facilidade.

Com o aumento da solidão, depressão e outras lutas da saúde mental comuns dessa fase da vida, há um desejo crescente que as representações sejam coniventes com a realidade. Até agora Hollywood tem lutado para consolidar a realidade da doença com a sua propensão ao Glamour.

Quem não lembra da polêmica envolvida com outra obra do serviço de streaming, os 13 Porquês (13 Reasons Why), que gerou preocupação por conta da representação vivida do suicídio da personagem Hannah Backer. Preocupação que se confirmou com a pesquisa do jornal da academia americana de psiquiatria da criança e do adolescente, os pesquisadores confirmaram o aumento da taxa de suicídio entre jovens de 10 a 17 anos após um mês de lançamento da série. Após a primeira temporada, Christine Moutier, diretora médica da Fundação Americana para Prevenção do Suicídio, fez uma parceria com a Netflix e ajudou a decidir a excluir o retrato do suicídio de Hannah Baker dois anos após a estréia .

Se em os 13 Porquês eles glamorizaram o suicídio, em Por Lugares Incríveis eles ofuscam-no. A autora Jennifer Niven baseou a história em seu próprio interesse amoroso, que tirou a própria vida aos 29 anos. Niven diz que escolheu escrever sobre adolescentes para criar distância de sua própria experiência. Quando ela começou a escrever a obra em 2013, preocupou-se em honrar a gravidade do assunto. Ainda assim, foi uma luta para construir uma narrativa de saúde mental que “acerte”. Em entrevista, Niven disse que:

“Ao escrever o roteiro, senti a mesma onda de nervosismo. É como, oh meu Deus, é um publico totalmente novo, e eu senti uma nova onda de responsabilidade. E eu tive que me dizer a mesma coisa: tudo o que posso fazer é escrever a história do jeito que a vivi.”

No entanto, as histórias de amor no contexto de depressão, saúde mental e suicídio de adolescentes são muito mais delicadas. Essas narrativas exigem ainda mais colaboração entre profissionais médicos, executivos de entretenimento e criadores em salas onde as decisões sobre como as histórias de saúde mental são iluminadas, escritas, editadas, produzidas, lançadas e promovidas. Quando qualquer uma dessas etapas é negligenciada, geralmente leva a resultados desiguais.

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